O Ensino de Geografia para crianças

Ana Maria Simões Coelho
Professora do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG

O ensino de Geografia nos cinco primeiros anos do ensino fundamental revelou-se, particularmente nas três últimas décadas, uma tarefa complicada, pois, embora no Brasil esta disciplina esteja presente no currículo escolar desde o início da escolarização, as professoras (na maioria, mulheres que se dedicam à educação nessa etapa do nível fundamental) não têm formação específica nesse campo do conhecimento, fato que passou a significar defrontar-se com dificuldades cada vez maiores para lecionar o conteúdo da disciplina. De fato, a partir de meados da década de 1980 teve início, no país, um movimento de renovação do ensino da Geografia, o qual se consolidou nos anos 1990. Este movimento fundamentou-se nas discussões epistemológicas que já tinham se insinuado na Geografia desde os anos 1960, a partir de iniciativas de geógrafos franceses e também norte-americanos. Tais debates, marcados pela preocupação com a relevância social da ciência e pela crítica tanto à realidade quanto à própria Geografia, só passaram a ocorrer, no Brasil, quando o regime militar então vigente começou a dar sinais de arrefecimento, sendo o marco inicial de sua chegada os acontecimentos que tiveram lugar no Encontro Nacional de Geógrafos ocorrido em Fortaleza, em 1978.

A partir daí a necessidade de reformulação na produção e atuação dos geógrafos e professores de Geografia manifestou-se com intensidade crescente, culminando em iniciativas como a realização de eventos e a publicação de artigos nos quais se discutia a crise da/na disciplina e as possibilidades e caminhos para superá-la. No ensino, impunha-se principalmente a necessidade de superar o enciclopedismo que dominava as aulas de Geografia, nas quais geralmente ocorria o simples repasse, pelos professores, de informações que deveriam ser memorizadas pelos alunos. Para substituir esta abordagem sugeria-se, entre outras coisas, tornar os temas discutidos nas aulas mais próximos da vivência dos alunos, assim como a necessidade de reconstruir, com os estudantes, o significado dos conteúdos estudados e de ajudá-los a dar-lhes um novo sentido. Tudo isto era pensado a partir de uma visão da Geografia como um campo de conhecimento capaz de fornecer instrumentos conceituais que possibilitassem aos estudantes e, portanto, aos cidadãos, de modo geral, a interpretação e a compreensão do que ocorre no espaço ao seu redor e do que rege as alterações espaciais que nos afetam, e também de fazê-lo de modo crítico, priorizando sempre a relevância, para a sociedade, dos conhecimentos produzidos.

Dentre as alterações que resultaram dessa passagem da Geografia brasileira por esse período de intensos debates e mudanças internas interessam-nos, aqui, aquelas incorporadas pelos livros didáticos, cuja linguagem tornou-se mais específica, talvez, num certo sentido, mais “técnica”. Lembrando novamente que os professores dos anos iniciais do ensino fundamental não têm formação específica em Geografia, isto significou, e não apenas para eles, um grande aumento das dificuldades para a compreensão do que se pretendia com o ensino desta disciplina. O que ficava cada vez mais claro era que a reconstrução do sentido do ensino de Geografia na escola não poderia ocorrer com base apenas no senso comum referido a esta disciplina, constituído a partir de experiências tidas em aulas de Geografia, em outros tempos. Os termos utilizados não eram reconhecidos e menos ainda compreendidos, principalmente pelas professoras do primeiro segmento do ensino fundamental, pelo motivo já mencionado.

Pesquisadora do processo de ensino aprendizagem de geografia para crianças dos primeiros anos do ensino fundamental I, Janine Lesann mostrou, inicialmente na pesquisa de sua Tese de Doutorado, agora publicada com alterações em formato de livro, que muitas noções ensinadas e aprendidas em diferentes disciplinas nessa etapa da vida escolar são fundamentais para a aquisição de conceitos que são estudados no conteúdo de Geografia na etapa seguinte, isto é, nos anos finais do ensino fundamental. Uma boa parte do conteúdo desta segunda etapa apoia-se na aquisição de noções de Cartografia ou diz respeito diretamente a elas, como as noções de localização, orientação, escala e representação. Quando o estudante chega ao sexto ano do ensino fundamental, ou mesmo antes, no quinto ano, “espera-se” que ele já tenha adquirido as noções mencionadas acima, assim como as noções de espaço e de tempo, que “naturalmente” passam a fazer parte do conteúdo de geografia, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, e que, portanto, estão presentes nos livros didáticos, sem que isto signifique que o professor de geografia da segunda etapa do ensino fundamental se preocupe com o que seus alunos realmente dominam dessas noções.

É principalmente levando em conta esse contexto que a importância da contribuição do livro de Janine Lesann – Geografia no Ensino Fundamental I – deve, a meu ver, ser apreciada. O livro tem o objetivo de tornar mais claro para as professoras que lecionam na primeira etapa do ensino fundamental e que tiveram, quando muito, uma preparação muito pequena e superficial quanto às especificidades da disciplina, qual o sentido e a importância de se ensinar Geografia nesse momento da escolarização. Nesse sentido o livro certamente deverá fazer parte da bibliografia básica dos cursos de Pedagogia, que preparam professores para atuar na primeira etapa do ensino fundamental. Assim, a professora Lesann se preocupa, logo no início do livro, com o mais importante, isto é, orientar os professores para que reflitam sobre o porquê de estarem lecionando Geografia, sobre o que pretendem com sua atuação. Para começar o trabalho, a autora considera essencial esclarecer: “(1) o que é Geografia? (2) para que serve a Geografia? (3) quais são os objetivos da Geografia escolar? (4) o que deve ser ensinado? E, finalmente, (5) para quem ensinar?” (p.26). Isto é diferente de perguntar e responder apenas, como costumava ser a preocupação dominante dos professores, “como ensinar este ou aquele conteúdo”. Esta foi uma das questões colocadas em pauta pelos importantes debates e reformulações ocorridos internamente ao campo da Geografia e que são muito significativas e interessantes para o seu ensino, como enfatiza Lesann, que também coloca em primeiro plano o educando e o respeito ao seu desenvolvimento intelectual.
Fazendo jus a toda uma carreira profissional dedicada à Cartografia, a perspectiva da abordagem do livro de Lesann, como um todo, tem a representação como ponto de partida, não apenas do ponto de vista cartográfico, isto é, da representação dos espaços por meio de mapas, mas também no sentido de que a apreensão da realidade a partir da Geografia requer e significa construir uma representação mental do que conhecemos. A primeira parte do livro é dedicada a questões teóricas e conceituais, partindo de reflexões sobre a importância do conhecimento no momento atual, sobre o sentido da primeira etapa do ensino fundamental e da aquisição e domínio de noções básicas para o ensino-aprendizagem de Geografia, e chegando à construção de conceitos a partir de sua árvore lógica, a uma proposta de organização curricular para os cinco primeiros anos do ensino fundamental e a reflexões sobre avaliação na escola. A segunda parte do livro é mais voltada para a prática de sala de aula, sendo cada um dos cinco capítulos dedicado a um tema específico: o acompanhamento da construção de conceitos básicos é desenvolvido passo a passo pela autora, tendo em vista o desenvolvimento intelectual da criança; Lesann também explica detalhadamente: o que é e como deve ser feita uma pesquisa escolar, envolvendo elementos da preparação e realização da parte empírica de uma pesquisa pelos alunos; o trabalho com a classificação de informações e sua organização em quadros, tabelas, gráficos e mapas; a utilização de diferentes recursos didáticos, entre os quais maquete, atlas, livro didático, mapas encontrados na Internet; e os dois últimos capítulos contêm, respectivamente, sugestões de exercícios e a correção desses exercícios.

Todos os temas tratados no livro fazem parte do dia a dia dos professores e são explicados claramente, em relação tanto ao que deve ser abordado quanto à razão de ser deste tópico do conteúdo de ensino, de modo a não apenas facilitar sua compreensão e o trabalho dos professores, mas também a estimular que eles de fato apliquem a abordagem sugerida como parte do trabalho que fazem com a Geografia. Nesse sentido, quero destacar os exemplos de questões que envolvem raciocínios próprios da Geografia; o trabalho com a árvore lógica dos conceitos de espaço, escala, tempo e representação; a proposta de organização curricular; e as sugestões para o trabalho com a construção dos conceitos de espaço e de tempo a partir dos desenhos das crianças.

O ensino de Geografia pode, assim, ser organizado em novas bases, no sentido de contribuir para a formação de cidadãos mais bem situados no tempo e no espaço. O livro de Janine Lesann propõe um trabalho cuidadoso a ser realizado por educadores interessados em experimentar uma abordagem instigante no ensino desta disciplina para crianças de 06 a 11 anos.