"A impostura do mestre”
Por que hoje tantos professores se dizem desautorizados, desvalorizados e desrespeitados? Que desgastes a profissão docente vem conhecendo que levam seus professores a se verem destituídos? É fato que o “mestre” nostalgicamente idealizado de outrora cedeu lugar a um profissional sucumbido à atual massificação tecnológica, à proletarização de seu ofício, à entropia política das estruturas e dos sistemas de ensino e à apatia e violência discente, tidas como causas dessa desautorização. Mas talvez devamos adensar esse debate ao alinhar tais fatos ao declínio do discurso do mestre e ao declínio de uma sociedade do pai, próprios de nossos tempos. Sobre isso a Psicanálise tem algo a dizer. A noção de vínculo social e a arquitetura antropológica do mito do pai primevo levaram Freud a uma desconstrução crítica da modernidade ao mostrar o quanto, ambiguamente, nossa sociedade destitui o pai e o mestre ao mesmo tempo em que os evoca sob a forma de “nostalgia”. É necessário remontarmos ao enigma do pai, um dos pilares a descoberta freudiana, para entendermos a suposta deposição do mestre moderno e do professor que encarna essa função. As chaves lacanianas de retorno a Freud são fundamentais. Exemplo disso é o Nome-do-Pai: um nome plural a ser pronunciado por todo mestre que deseja responder, sem sucesso, ao enigma que o origina. É Lacan também que introduz a teoria dos Quatro Discursos, entre eles o do Mestre, para explicar que todo aquele que ocupa o lugar do significante-mestre, de querer submeter todos à sua lei, conhecerá cedo ou tarde os efeitos de sua impostura. Esses são modos de recolocar o impossível do ato de educar e de governar – tão propalado pelos pensadores da conexão entre Psicanálise e Educação. E mais: a Antropologia contemporânea nos auxilia a teorizar sobre a necessidade humana de ser amada e guiada por mestres e, ao mesmo tempo, impor-lhes uma desautorização política à sua função, corroborada pela Pedagogia. Não podemos entendê-la sem ressalvas. Para isso o juízo de autores como Gusdorf, Rancière, Lajonière, além de Freud e Lacan nos é necessário. Mas é em Foucault que as ortopedias pedagógicas e a moralização do código através da escola parecem ganhar a mais irrevogável sentença condenatória; e, somado à noção de “maternagem” – de cientificismo do saber doméstico estabelecido pela Pedagogia –, temos mais um nome da impostura constitutiva a que todo mestre é destinado. Só então é possível ir ao coração deste trabalho e teorizar que o mestre, como um “deus de prótese”, só o é provisoriamente. Situar-se como provisório talvez seja assentir com um lugar intermediário de poder, de passagem, segundo o qual não se exige nem tanto o nada saber, sendo cúmplice de uma debilidade, como nem tanto o tudo saber, sendo expressão de uma arrogância. O vigor da docência, ou a sua estilística, dependeria muito de uma ética do provisório: algo que seja mais contingente do que absoluto, mais circunstancial do que planejado. Temos, então, o percurso deste livro: da psicanálise do vínculo social, passando pelo “avesso” lacaniano dos quatro discursos, pela ética do provisório, bem como pela dispersão materna do discurso pedagógico numa sociedade “sem pai”, chegamos à crise da autoridade política do professor e de quem governa o outro ou, mais exatamente, ao que temos como título: A impostura do mestre.
Texto: Marcelo Ricardo Pereira