UM ESCRITOR NO PARAÍSO DAS MARAVILHAS
Bruno Souza Leal (UFMG)*
Que paraíso é esse que dá título ao livro de Luiz Morando? Que maravilhas são essas?
Como um lugar de encontros fortuitos, que se desviam da violência de bandidos e da polícia pode ser assim tão revelador? Que cidade abriga tal enclave tão peculiar? As respostas a essas perguntas não são certamente lineares, nem rápidas. Exigem um olhar ao mesmo tempo sutil e saboroso, capaz de captar em texto as contradições, as tensões que marcam a sexualidade, a vida urbana, os discursos e as pessoas que ali se fazem. Talvez por isso mesmo seja tão difícil classificar o livro de Luiz Morando, Paraíso das
Maravilhas: uma história do Crime do Parque. Ainda que se apresente como um “estudo”, o livro se oferece ao leitor como muito mais que isso. Afinal, ele é uma espécie de romance policial, em que se reconstituem investigações, acusados, envolvidos e motivações de um assassinato misterioso. É também um livro-reportagem, em que depoimentos e textos literários, policiais, jurídicos e jornalísticos são articulados para contar uma história verídica. Elaborado com informações detalhadas, em alguns momentos assustadoramente meticulosas, Paraíso das Maravilhas é também um livro de História, pois traz à cena Belo Horizonte e seus personagens. Não seria justo, porém, desconsiderar o modo como o próprio livro se apresenta: ao dizer-se um “estudo” a narrativa faz jus à erudição e ao olhar reflexivo, teoricamente consistente, que a sustenta. Em seu livro, o professor universitário e doutor em Estudos Literários Luiz Morando cuidadosamente, portanto, articula contradições e aproxima relações aparentemente opostas. A morte do engenheiro Luis Delgado − cujo corpo foi encontrado no Parque Municipal, em Belo Horizonte, na segunda metade dos anos 40 − e as investigações que a sucedem foram alvo de mais de 4 anos de pesquisa e servem de ponto de partida para um passeio pelas vidas visível e invisível, pelas identidades à luz e à sombra, pelos ditos e não-ditos que se fizeram em Belo Horizonte ao longo das décadas seguintes. Aos poucos, na urdidura dos depoimentos, de pontos-de-vista, das precisas informações, começa a se delinear uma cidade que escapa aos olhos institucionais, que foge do álbum de fotografia oficial. A cidade moderna, republicana, de ruas retas e largas passa a ser também um lugar sinuoso, em que os discursos e as pessoas se desdobram entre desejos e afetos, padrões de normalidade, necessidades econômicas, possibilidades e impossibilidades de um momento histórico.
A cada página, o leitor vê então se constituir também um narrador, que faz do passeio.
Nessa trama, surgem personagens fascinantes, como o próprio Luis Delgado, Décio e Ieda Escobar, policiais, jornalistas, jornais, a cena homoafetiva, o Parque Municipal e a cidade de Belo Horizonte, que vão sendo apresentados em suas idiossincrasias à medida que a história avança, causando expectativa, suspense e surpresa aos leitores pelo Paraíso das Maravilhas um andar de mãos dadas com uma companhia inteligente e instigante. Ao articular os diversos fios que compõem sua história do Crime do Parque, Luiz Morando cria um narrador que como que joga com o leitor – por que não dizer? – em alguns momentos até capciosamente. O estilo claro, preciso e lúcido do livro não abre mão de sutilezas, de um olhar que se revela sempre respeitoso, mas ora indignado, não raro bem-humorado, ora mordaz, às vezes malicioso, tanto em relação ao que conta quanto para quem conta. Aliás, o próprio título diz já traz tudo isso: como pode haver crime no paraíso, se este não for ao mesmo tempo maravilhoso e real, central e à margem? O fato de Paraíso das Maravilhas: uma história do Crime do Parque ser um livro inclassificável diz, portanto, dessa relação de empatia e distanciamento se estabelece entre narrador, leitor, personagens e histórias. Daí advém certamente sua riqueza. Escrito fora da Academia, mas alimentado pelo rigor se que constitui um dos seus principais atributos, o livro de Luiz Morando pode refletir sobre a cidade como uma grande tese, produzir curiosidade e suspense como um romance policial, conter mais informações que um livro-reportagem. Trata-se de uma grande narrativa, que faz jus ao desafio que se impõe: contar histórias sem simplificá-las, sem reduzi-las a clichês, sem fazer da tarefa do leitor algo fácil e insosso. Nesse momento, é possível verificar qual seria a grande revelação do livro, que é mais que a reconstituição histórica, que as tensões dos discursos sobre a (homo)sexualidade, que a percepção da ação dos jornais, de jornalistas, policiais e juízes em suas contradições. Para além de um texto de um acadêmico, de um historiador ou de um repórter, Paraíso das Maravilhas revela-se obra de um escritor talentoso, capaz de construir um mundo complexo, ao mesmo tempo agradável e incômodo. Nessa mistura de gêneros, então, encontra-se algo que parece meio esquecido ou mesmo fora de lugar: encontra-se literatura, talvez no melhor sentido do termo.
* Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (2000). Atualmente é professor do curso de Comunicação Social da UFMG, atuando na graduação, na administração, na extensão e na pós-graduação.
MORANDO, Luiz. Paraíso das maravilhas: uma história do crime do parque. Belo Horizonte: Argumentum, 2008.
e-com, Belo Horizonte, v.2, n.2, nov 2008
Fonte: www.unibh.br