Crime passional gay ocorrido em Belo Horizonte há mais de seis décadas ganha livro reportagem
Por Redação
Em 5 de dezembro de 1946 foi encontrado o corpo de um homem, assassinado com 28 facadas, no Parque Municipal, região central de Belo Horizonte. A vítima, Luiz Gonçalves Delgado, era paulista, mas trabalhava em BH. As investigações policiais acabaram por ligar o crime à vida íntima da vítima, enxergando uma motivação passional com contornos homoeróticos. A região do Parque Municipal onde o corpo foi encontrado era freqüentada, à noite, por homossexuais que transformaram ali em um espaço de sociabilidade, vivenciando um código comum e exercendo trocas sexuais,. O local ficou conhecido como Paraíso das Maravilhas _ termo emprestado pelo autor para batizar o livro que conta a história do tal crime.
De 1946 a 1953 as investigações policiais foram frustrantes, embora a atenção e a curiosidade da população estivessem constantemente despertadas para aquele delito. Algumas pessoas foram apontadas como culpadas, mas nada foi provado. Em 1953, o poeta Décio Frota Escobar é apontado por sua esposa como assassino de Delgado, confirmando a motivação passional homoerótica. Décio Escobar foi preso e em abril de 1954, em júri popular, foi absolvido por 5 votos a 2. Em 1969, Escobar foi assassinado no Rio de Janeiro por garotos de programa. O Crime do Parque nunca foi solucionado. Essas poucas linhas são o mínimo para relatar uma história com diversos ganchos folhetinescos. Os meandros e os desdobramentos das investigações são numerosos e ricos para apontar a formação de uma rede social homoerótica na Belo Horizonte das décadas de 1940-1960. Foi isso o que motivou a preparação deste livro: tentar analisar, pela exposição da história do Crime do Parque, como o Paraíso das Maravilhas e as relações entre seus freqüentadores se constituíram em um ponto para o qual converge uma mentalidade típica da capital mineira no que toca à forma de representar e enxergar a homossexualidade masculina.
A preparação de Paraíso das Maravilhas: uma história do Crime do Parque levou quatro anos de pesquisa em algumas frentes: o levantamento de informações em reportagens que enfocaram o crime, em jornais e revistas, mineiros e nacionais, no período de 1946-1969, na Hemeroteca do Arquivo Público Mineiro, com sua transcrição e fotografia; a leitura dos cinco volumes do processo judicial do Crime do Parque e de outros dois processos de assaltos a homossexuais no Parque Municipal, de 1947; entrevistas com pessoas que viveram na cidade na época e jornalistas que cobriram o julgamento de Décio Escobar; o levantamento de informações sobre o ambiente urbano da época, sobretudo o Parque Municipal. Essas frentes ajudaram a recriar as tramas do processo de investigação e a enxergar, com mais precisão, o tratamento dado à homossexualidade por quatro tipos de discursos: jornalístico, policial, jurídico e popular. O livro tenta reconstruir essa percepção por meio do relato cronológico dos fatos, sem dar tratamento ficcional, mas também sem atribuir um tom fortemente acadêmico ao texto.
Paraíso das Maravilhas: uma história do Crime do Parque é uma publicação da Argvmentvm Editora. Seu autor, Luiz Morando, é Mestre em Literatura Brasileira e Doutor em Literatura Comparada pela UFMG. Atualmente, é professor do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH).
Fonte: http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/3_48_69042.shtml