O BOSQUE DE EUCALIPTOS
Investigação sobre crime ocorrido em Belo Horizonte nos anos 1940
Paraíso das Maravilhas relata as marchas da investigação policial, dos trâmites judiciários e do noticiário em torno do evento que ficou conhecido como “crime do Parque”, ocorrido na noite de 4 para 5 de dezembro de 1946, no Parque Municipal da cidade de Belo Horizonte, onde foi morto com cerca de 27 facadas Luiz Gonçalves Delgado, funcionário de uma empresa eletroquímica.
O título remete à forma como um bosque de eucaliptos era chamado pelos freqüentadores noturnos, os homossexuais que para lá iam em busca de aventuras e encontros sexuais ou amorosos. Todo o livro de Luiz Morando tem como característica a visualidade, é um livro composto da descrição minuciosa, detalhista, de cenários e de cenas: um livro composto por quadros. È um livro pictórico, se não cinematográfico.
Estética do pitoresco
Conforme diz Luiz Mott, que escreve o prefácio, um dos grandes méritos do livro talvez seja o de nos proporcionar conhecer detalhadamente as nuances e matizes até então pouco conhecidos da vida urbana em Belo Horizonte nos meados do século 20, notadamente a sociabilidade e os percalços da população homossexual, e como tal segmento era representado no imaginário e na escrita dos mineiros. O detalhe, o movimento, tudo o que pudesse se transformar o natural, a paisagem em algo divertido e recreativo, em algo graciosamente original, é o que caracteriza a estética do pitoresco.
O relato do livro trata de chamar atenção para os borrões, as imperfeições, os pontos obscuros, lúgubres, sombrios, pouco iluminados, que deveriam ser observados ao se contar a história de um Paraíso das Maravilhas, tanto do ponto de vista natural quanto do social. Como diz o autor na introdução da obra, o crime de que foi vítima Luiz Delgado lhe serviu de metonímia, de ponto de fuga, para que ele procurasse pintar outro quadro da sociedade mineira e a vivência dos homossexuais entre as décadas de 40 e 60 do século passado, com suas imperfeições e assimetrias.
O pitoresco enfatiza, justamente, o característico, o mutável e o relativo. A narrativa de Luiz Morando chama a atenção para o característico na medida em que toma a vida e a violência de que é vitima Delgado, violência física e simbólica, como exemplar do que ocorria com os homossexuais no período; mas chama a atenção também para o mutável tanto no que refere a uma história da cidade ou da urbanização da capital mineira, como no que se refere à história das vidas e das imagens dos homossexuais masculinos que aí viviam
Com isto ele relativiza as maneiras canônicas de contar tais histórias; relativiza as próprias formas de ver e dizer o crime no Parque, suas versões consagradas e cristalizadas. Relativiza as próprias imagens de seus personagens e sujeitos. Luiz Delgado, Heitor Seixas Coutinho, Clovis de Magalhães Pinto, Paulo Gomes de Matos, indiciados como prováveis assassinos por distintas investigações e em distintos momentos do processo; Décio Frota Escobar, acusado por sua própria esposa de ser o autor do crime, que termina por ser absolvido e morre estrangulado no Rio de Janeiro, também num crime motivado por homofobia e delinqüência, como parece ter sido o caso de Delgado; e, principalmente, a imagem do inspetor Alfredo Zuquim, que de Sherlock da Montanha passa a se assemelhar mais ao Inspetor Clouzot.
Mas ninguém aparece pior no quadro do que o aparelho policial e judiciário e a chamada grande imprensa, atravessados por vaidades, por interesses pouco confessáveis e pouco lícitos, adotando procedimentos de investigação nada ortodoxos, misturando e confundindo seus papéis, usando e abusando de visões que sabemos datadas, mas preconceituosas e excludentes acerca dos homossexuais e outros personagens envolvidos no evento, notadamente se pertencessem aos estratos sociais, populares, privilegiando e possivelmente se deixando corromper ou no mínimo cedendo a pressões quando a investigação se aproximava perigosamente de pessoas influentes na sociedade mineira, (motivo, talvez, para que o crime nunca tenha sido esclarecido).
Da estética do pitoresco guarda ainda este livro o fato de ser vazado em uma narrativa imaginosa, cintilante e viva, uma narrativa que, ao mesmo tempo em que diverte, em que chama a atenção do leitor para o detalhe curioso, para o inusitado da situação, vai dando profundidade aos cenários e às cenas, às paisagens naturalizadas da vida social e cultural, aos estereótipos que comumente ajudam a descrever, a pintar a sociedade mineira e os mitos da mineiridade.
Fonte: Jornal de Resenhas – Discurso Editorial – Agosto/ 2009 - N° 3
Texto: Durval Muniz de Albuquerque Júnior