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Se em nossa cultura a ciência se tornou a principal referência
de conhecimento verdadeiro, as imagens em movimento, que começaram
com o cinematógrafo, são um dos mais importantes veículos
de comunicação e de formação cultural. Ainda
que, com a difusão da televisão, o cinema tenha perdido parte
do glamour que possuía e da preponderância na vida social, ele
continua a deter um enorme poder econômico e cultural, e segue vendendo
estilos de vida, construindo e legitimando determinadas identidades sociais
e desautorizando outras.
Enquanto nas primeiras décadas do século XX, o filme cinematográfico
era considerado como uma atração de feira, ele logo se transformou
numa instância formativa poderosa, criando novas práticas e
ritos urbanos. Nas décadas de 1940 e 1950, o cinema se tornou um amplo
empreendimento industrial, que envolvia revistas, moda, produtos de beleza,
discos, e infundia estilos de vida. Mas desde a década de 60, quando
a televisão foi progressivamente se impondo, as salas de exibição
diminuíram de tamanho e de número. Os ingressos ficaram mais
caros. No Brasil, como em vários países do mundo, há
hoje menos da metade das salas de cinema do que havia há quatro décadas.
Sobretudo nas cidades pequenas, salas de projeção foram desativadas
e muitas – sinal dos tempos – tornaram-se igrejas evangélicas. A diminuição
das salas de cine-teatro é um indicador expressivo, mas esconde outras
formas de veiculação dos filmes e interação entre
os meios e as linguagens, pois os filmes se tornaram acessíveis na
programação televisiva ou em vídeos e DVDs e, mais recentemente,
via computadores. A legenda, que era um limitador da audiência de filmes
estrangeiros, é substituída pela dublagem nas reapresentações
em canal aberto. É o que ocorre com a maior parte dos filmes comentados
em História da Ciência no Cinema 2, que embora não passem
mais nos cinemas, continuam circulando por outros meios. Quando se fala
de ciência no cinema é nas ficções científicas
que primeiramente pensamos. Mas ela não é, obviamente, o único
gênero de filme a projetar imagens sobre o conhecimento científico,
os cientistas ou as sociedades neles centrada. Filmes de aventuras, dramas,
comédias, desenhos têm também sua parcela de contribuição
na formação de estereótipos, modelos e expectativas
que acabam por se constituir como referências comuns pelas quais a
ciência e a técnica são percebidas por grande parte da
sociedade, compondo assim o arsenal simbólico no qual a opinião
pública vislumbra e discute os rumos e os limites dos empreendimentos
científicos e tecnológicos. Todos esses tipos de filmes são
históricos, tanto no sentido de refletirem o olhar de uma sociedade
ou um grupo de uma determinada época, como no sentido de serem agentes
históricos, enquanto elementos formadores do imaginário social.
Em ambos os sentidos, podem contribuir para a compreensão da história
da ciência. Algumas produções
tentam reconstruir o passado da maneira que julgam ter acontecido. Mas são
sempre interpretações reconstruídas, que dependem não
só de como se interpreta o passado como também das formas e
recursos que se tem para recontá-lo ou remontá-lo. O passado
muda não só com novas informações resgatadas,
mas também com as novas razões que encontramos para reconstruí-lo
e novas maneiras de fazê-lo.
Assim como se diz que toda tradução é uma
traição, toda reconstrução é uma deturpação.
Se todos os tipos de registros históricos e testemunhos são
tendenciosos, filmes dirigidos às grandes platéias talvez contenham
mais convenções e distorções do que qualquer
outro meio de comunicação. O princípio de organização
de filmes é dramático e estético. A exatidão
sem dramaticidade é algo monótono. Uma das peculiaridades das
narrativas cinematográficas é a necessidade de maquiar as complexidades
e as monotonias da história de forma a fascinar o público.
Para responder a essas exigências o cinema foi desenvolvendo sua linguagem,
por exemplo, com efeitos especiais, que se tornaram um item à parte
nas premiações e propagandas. Mas esse desenvolvimento é
relativamente lento, pois filmes voltados para o grande público tendem
a se encaixar nos padrões que se tornaram costumeiros, como o tempo
de exibição, estrutura narrativa e estereótipos que
diferentes públicos terão facilidade em captar. Enredos com
muitas linhas de ação que não convergem, com construções
de personagens sem apoio de clichês ou que se embrenham em detalhes
técnicos acabam se mostrando complicados demais, restringem o alcance
do filme a uma pequena parcela de audiência e diminuem as chances de
tornar o empreendimento um bom negócio. A produção pode
arriscar a tocar em tabus, especialmente se isto ajudar na repercussão
do filme, mas procura evitar que a narrativa seja entediante ou pouco compreensível.
Isso faz com que essas produções reflitam, senão o olhar
da época, ao menos um olhar mais amplo e comum do que o do grupo composto
pelo diretor, sua equipe e seus produtores. O que fazem delas um ótimo
material para análise da cultura e também para compreensão
das representações sociais sobre os cientistas e sua atividade. O sentido negativo
de adulteração da verdade original pode ser encarado também
de forma positiva, como reinvenções e expressões de
outras experiências e motivações. Desde que caiu em desuso
a distinção ortográfica entre história e estória,
que marcava a diferença entre narrativas que se referiam ao passado
e seu estudo, e as narrativas puramente ficcionais, ficamos todos mais à
vontade para explorar terrenos que sempre conjugaram as duas coisas. Nem
todas tentativas de explicação do presente através das
mudanças e permanências no tempo são narrativas cativantes.
É com personagens e suas histórias que geralmente nos identificamos
e nos projetamos. É nas tramas dessas narrativas que somos pegos.
Elas apresentam de uma forma não argumentativa, mas figurativa, o
desenrolar de atividades como o trabalho da ciência e seus desdobramentos,
permitindo uma visualização e uma vivência através
da transposição que a linguagem cinematográfica possibilita
e que se faz tão marcante. Há bons
filmes que recontam a vida de cientistas célebres, como Galileu, Pasteur
e Freud, e uma filmografia muito maior sobre cientistas
pouco conhecidos. Além de revelar ao grande público suas lutas
e de celebrar suas contribuições, esses filmes ajudam a entender
um pouco mais a prática da ciência e também dos mecanismos
de promoção e circulação do conhecimento. Eles
nos fazem refletir, por exemplo, sobre como as situações e
características pessoais ou os vínculos com certas instituições
reforçam ou inibem a promoção de idéias, das
práticas e imagens de seus representantes. Essas biografias
têm em geral um efeito paradoxal na difusão da cultura científica.
Se, por um lado, elas dão mais vida à ciência, revelando
o lado humano que geralmente fica de fora dos livros de ciência, por
outro, personaliza e espetaculariza um processo que se sabe lento e abrangente.
Assim, ficamos conhecendo detalhes de suas vidas (sua família, sua
casa, seus hábitos, etc.) que nos ajudam a conhecer e compreender
seus esforços ao mesmo tempo em que a dramatização em
ações específicas reforçam uma noção
mitificada de ciência. Essas são reflexões que o leitor
encontrará em História da Ciência no Cinema 2, e esperemos
possam ser um estímulo a mais para ver os filmes comentados.
Caderno Pensar - Jornal
Estado de Minas, 23 de junho
de 2007
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