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O dilema de todos nós
Talvez a mais
cotidiana evidência de que, no mundo contemporâneo, nossa
subjetividade foi
marcada de modo indelével pela forma de trabalho da sociedade
industrial seja a
freqüente determinação da nossa própria
“essência” a partir do que fazemos ou
produzimos. A resposta à pergunta: o que você é?
É preenchida não efetivamente
pelo que somos ou desejamos ser, mas pelo que fazemos. Pois, na
ótica dessa
sociedade industrial, somos o que fazemos enquanto
ocupação ou profissão. Sou
professor, Pedro é advogado, Antônio é
médico, Átila é eletricista etc. Assim
nos definimos. O que fazemos orienta o significado do que somos na rede
social
e produtiva na qual nos inserimos. É nesse sentido que, para
essa sociedade, a
nossa determinação ontológica não se
estabelece primordialmente por uma
perspectiva estética, política, existencial etc., mas, em
grande medida, nos
reduz ao nosso fazer imposto pelo mundo do trabalho.
Entretanto, o trabalho não é apenas algo negativo para o homem. Pelo contrário, de acordo com um importante ponto (senão o central!) da obra de Marx, o trabalho é o que torna o homem, efetivamente, humano; traz a consciência de si e o diferencia dos outros animais, ainda que o trabalho seja uma porta aberta para a “alienação”. Paradoxalmente, parece que a sociedade industrial que traz essa aguda consciência que o homem tem do trabalho, enquanto categoria de emancipação ou alienação, é a mesma sociedade que irá circunscrever o homem nessa determinação ontológica através do trabalho, infringindo-o se não uma alienação econômica, uma alienação política, social ou estética. Como dito, o mundo do trabalho da sociedade industrial é que determinará o que somos pelo que fazemos. Enquanto seres presos a essa rede, na maioria das vezes, não percebemos que ela é uma construção histórica que se ergueu nos últimos trezentos ou quatrocentos anos. Diferentemente disso, o mundo da sociedade industrial e suas redes de trabalho nos parece uma construção natural. Por exemplo, o trabalhador não questiona (embora reclame!) por que ele mora distante da fábrica ou do comércio onde trabalha. Não tem conhecimento de que o projeto urbano das “cidades industriais” – diferentemente das cidades antigas ou medievais – buscando sua “produtividade”, separou um local para as fábricas e indústrias e outro para a habitação (cidades dormitórios). Evidentemente, o próprio homem é um ser de artifício. Não fosse esse o modelo de sociedade e de trabalho, certamente seria outra construção também artificial, possivelmente, com aspectos positivos e negativos. Mas a forma como a sociedade industrial se configurou tornou-se a “nossa” rede. Assim, qualquer tentativa do homem contemporâneo de compreender-se passa necessariamente por sua determinação histórica no mundo do trabalho. A sociedade em que vivemos com seus profundos dilemas e aporias é a sociedade do trabalho. Não apenas estamos inseridos nela, mas somos intrinsecamente constituídos por ela (ainda que pudesse ser de outro modo). A consciência disso não nos expurgará dessa condição, mas nos ajudará a nos posicionarmos melhor frente a esse modelo de sociedade, conseqüentemente nele interferir. Com certeza, ainda existirão aqueles que irão propor um modelo radicalmente novo e pretensamente melhor, o que não nos exime de conhecer profundamente a sociedade do trabalho vigente com suas mazelas e também acertos. Enfim, conhecer da melhor forma possível a sociedade do trabalho é algo que nos parece imperativo. É esse um dos principais argumentos que nos convidam ao livro Dilemas da Sociedade do Trabalho (Argvmentvm Editora), escrito por Alberto Rocha Cavalcante, Antônio Carlos de Albuquerque e Cláudio Roberto de Jesus, respectivamente, um filósofo, um economista e um sociólogo. Com um instigante posfácio do psicólogo Ricardo Alves de Carvalho. Esse livro é, com efeito, uma excelente oportunidade de ver a sociedade do trabalho em uma perspectiva multidisciplinar. Os autores, em uma linguagem clara e didática, abordam não apenas a história do trabalho na modernidade, mas os principais dilemas enfrentados nessa sociedade do trabalho. Dilemas esses que afetam inegavelmente a vida de cada um de nós. Retomando os conceitos de ideologia e trabalho, o primeiro capítulo constrói um panorama da história do trabalho que nos mostra, desde sua origem, como se construiu tais dilemas e aporias que se encontram tão exacerbados no mundo do trabalho contemporâneo. No capítulo dois, a análise dessa crise da sociedade do trabalho, denominada pelos autores de crise da sociedade salarial, é aprofundada através da compreensão do papel do Estado e das políticas assistenciais que, na seqüência, conduzirão ao Estado do bem-estar social (Welfare State) que é considerado pelos autores, em grande parte, “uma resultante do embate entre capitalismo liberal e os ‘conflitos sociais’. A ação do Estado tendeu a regular a ordem econômica e social, com um controle consciente do gasto público e mecanismos de controle econômico”. A minuciosa análise empreendida mostra os críticos e os defensores desse modelo. No capítulo três, é abordada a chamada “reestruturação produtiva” ocorrida em início dos anos setenta em países desenvolvidos e em início da década de noventa no Brasil. A tônica desse capítulo é a transformação no mundo do trabalho e os estilos de gestão no âmbito da realidade brasileira. Na abordagem do mundo do trabalho a partir dessa realidade brasileira, os autores acrescentaram um importante último capítulo que analisa a nova configuração do mercado de trabalho brasileiro a partir de um estudo de duas profissões paradigmáticas para a compreensão das novas relações de trabalho: secretariado e turismo. Uma profissão ligada ao modelo tradicional de trabalho e outra que apresenta novas perspectivas e possibilidades diferentes do modelo empresarial tradicional. Por fim, o livro traz um posfácio do professor Ricardo Alves de Carvalho que analisa, do ponto de vista da psicologia do trabalho, quem são os “os novos sujeitos trabalhadores”. Pontua e indaga sobre a complexa constituição da identidade no trabalho, em uma sociedade em atualização.
Ainda que
não se possa definir a complexidade humana simplesmente com
ênfase no homo faber e nas complexas redes
político-econômicas que esse
“saber fazer” construiu na modernidade, é inegável que o
trabalho é importante
parte constituinte do ser humano. Em outras palavras, o homem
não é tão-somente
um ser do “fazer”, mas também do “compreender” (homo
sapiens).
A
junção dessas duas perspectivas parece ser um bom caminho
a ser seguido pela
sociedade do trabalho superando, assim, a crítica de Marx que
foi entendida por
alguns – equivocadamente ou não –
como
um elogio ao Homo faber: “os filósofos interpretaram
demais a realidade;
cabe, agora, transformá-la”; pois, como indaga Heidegger: “Ora,
interpretar já
não é transformar?” Nossa realidade nunca mais
será a mesma depois de
interpretada. Com efeito, o que esse livro convida é exatamente
a uma
compreensão e interpretação da sociedade do
trabalho. Quem sabe, assim, munidos
dessa interpretação, poderemos, no novo mundo do
trabalho, transformar para
melhor a nossa realidade.
Mauro Lúcio Leitão Condé Caderno Pensar
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Jornal Estado de Minas,
18 de março de 2006
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