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A segunda metade da década de oitenta do século XX
assistiu a uma
avalanche de obras críticas da filosofia de Heidegger. Isto se
deu, em grande
medida, devido ao aparecimento, em 1986, de sua polêmica
última entrevista
autorizada para a publicação apenas dez anos após
sua morte (1976). Heidegger
reaparece agora na cena da reflexão filosófica brasileira
em um dos pontos de
sua filosofia extremamente caro a todos nós que vivemos na
sociedade
tecnológica, a saber: a questão da técnica.
Juntamente com a reflexão sobre a
técnica de outro pensador de grande envergadura, Oswald
Spengler, a obra de
Heidegger é primorosamente abordada pelo diplomata e doutor em
filosofia Rubem
Mendes de Oliveira no livro A questão da técnica em
Spengler e Heidegger.
O ponto central deste livro é a análise filosófica
da técnica a partir
da obra de Spengler e Heidegger. Abordagem que é conhecida como
“a questão da
técnica”. A obra de Spengler teve um grande impacto em seu
tempo, muito embora,
segundo alguns de seus intérpretes, sua filosofia seja datada
com precisão, o
que justificaria o quase desaparecimento desse autor do cenário
filosófico.
Para alguns, isso se deu porque Spengler estaria equivocado, para
outros, ao
contrário, exatamente porque confirmou o Declínio do
Ocidente. Heidegger
foi um dos mais importantes filósofos do século XX.
Talvez divida, com
Wittgenstein, o mérito de ter sido um dos dois pensadores
contemporâneos mais
influentes. Se Wittgenstein foi o grande filósofo a apontar o
caminho a ser
seguido pela tradição analítica, a
tradição fenomenológico-hermenêutica viu-se
revigorada a partir dos trabalhos de Heidegger. A técnica tem sido objeto de
estudo dos filósofos em diferentes perspectivas. Trabalhos de
abordagem
histórica procuraram analisar a relação que a
técnica (techné)
estabeleceu com a filosofia (episteme), a partir do
renascimento, na
formação da ciência (Scientia) e da
tecnologia modernas. No século XX,
essa abordagem histórica foi desenvolvida inicialmente nos
trabalhos do
filósofo austríaco – posteriormente radicado nos Estados
Unidos – Edgard Zilzel
(Die sozialen Ursprünge der neuzeitlichen Wissenschaft),
ligado ao
círculo do positivismo lógico de Viena. Em seguida, foi
retomada pelo filósofo
italiano Paolo Rossi (Os Filósofos e as Máquinas).
Essa perspectiva sustenta-se no
pressuposto histórico de que os gregos inventaram a idéia
de ciência (episteme)
como o conhecimento do universal, o instrumento que permitiria acessar
a
essência do mundo, mas que, no entanto, distanciava-se
deliberadamente do
conhecimento prático ou techné. Com efeito, Episteme
e techné
constituíram formas de saber distanciadas uma da outra na
tradição ocidental
até o renascimento. Para Zilzel e Rossi, a partir daí, a
junção desses dois
saberes formará, então, as bases da ciência moderna
(Scientia) e da
tecnologia. A tradição do “saber pensar” (ou a
tradição filosófica) encontra-se
com a tradição do “saber fazer” (o saber prático
dos ceramistas, marinheiros,
artesãos, etc). Embora, a princípio, essas
tradições se excluíssem mutuamente,
acabaram por perceber que a episteme, sem a techné,
é vazia; a techné,
sem a episteme, é meramente um “catálogo medieval de
técnicas desconexas”. A
própria techné, nesse novo contexto,
gradativamente transformar-se-á em
tecnologia. Uma vez consolidadas, já na
modernidade, a ciência e a tecnologia
tornam-se objeto de análises de cunho mais estritamente
filosófico. Em outras
palavras, na medida em que a técnica e a tecnologia, na
sociedade industrial,
ocupam de modo exponencial um importante papel na
transformação da natureza e,
conseqüentemente, na modelagem da organização social
e na constituição da
subjetividade do homem moderno, a “questão da técnica”
torna-se, com efeito, um
foco de especial interesse para a filosofia. O Declínio do
Ocidente é nitidamente uma obra de caráter
histórico,
ainda que a questão da técnica
já esteja aí colocada. Então, será em Der Mensch und
die Technik
(O Homem e a
Técnica) que Spengler afirmará
que a pergunta pela técnica coloca-se de modo efetivo apenas no
século XX: “Qual
a significação da técnica? Qual seu sentido dentro
da história? O seu valor
dentro da vida?” Indo além da perspectiva histórica, a
abordagem filosófica
pergunta pelas implicações diretas da
relação entre o homem e a técnica. Será a
técnica um instrumento de autonomia e emancipação
do homem, ou o veículo da sua
destruição? A filosofia, talvez a mais geral e abstrata
forma de conhecimento
ocidental, toma como objeto de análise a técnica: a mais
concreta forma de
conhecimento produzida pelo homem. Para uma real compreensão da
“questão da técnica”, Spengler e Heidegger são
autores fundamentais. Esta é uma
das conclusões que podemos ter da leitura do livro de Rubem
Mendes de Oliveira.
Seu texto, construído com erudição e
elegância, deixa claro para o leitor que
uma abordagem criteriosa da técnica na modernidade necessita,
obrigatoriamente,
levar em consideração as análises de Spengler e
Heidegger. Embora tenha sido
realizada com maestria, essa não é uma empreitada
fácil, uma vez que a
compreensão da questão da técnica nesses autores
não é algo isolado de suas
respectivas obras, isto é, a questão da técnica
deriva do corpo mais amplo e
complexo de suas idéias. Em Spengler, por exemplo, essa
reflexão é derivada da
idéia de que o homem é o supremo animal de rapina, que
encontra na técnica –
como tática da vida – o instrumento que potencializa, ao
máximo, sua essência
bélica. O que, no entanto, não permitirá evitar a
decadência de sua
civilização, uma vez que uma tal decadência faz
parte do próprio ciclo vital da
civilização. Já para Heidegger, a questão
da
técnica advém de uma outra problemática mais
primordial, a saber: a questão do
ser, de seu caráter de desvelamento. A técnica
está ligada, assim, diretamente
à problemática da diferença ontológica
entre o ente e o ser. A Questão da
Técnica em Spengler e Heidegger mostra-nos dessa forma que,
para Heidegger,
a técnica é “uma possibilidade com a qual o ser se
manifesta no mundo enquanto
ente. Em outras palavras, a técnica é um modo de ser”. Em sua primorosa exposição
da
obra dos dois pensadores analisados, Rubem Mendes de Oliveira chama-nos
a
atenção para o fato de que, resguardadas as
diferenças (não raro profundas)
entre Spengler e Heidegger, encontramos, no entanto, pontos
convergentes muito
significativos. Tanto Spengler quanto o autor de Die Frage nach
der Technik (A Questão da Técnica) operam um retorno ao passado
onde a técnica teria um caráter mais positivo, em
contraposição aos efeitos
nocivos hoje por ela apresentados. Ambos autores salientam ainda um
certo fatalismo
em suas análises conclusivas. Spengler, por exemplo, chega a
afirmar que o
homem não pode mais controlar a técnica: ele está
sob o domínio desta. Segundo
Spengler, “só os sonhadores é que acreditam que haja uma
saída. O otimismo é
covardia”. Também Heidegger, ainda que distanciado de Spengler
quanto à
problemática específica de sua filosofia, ao considerar
que a técnica atual é
desvelamento, acaba por professar um fatalismo com sua idéia de Gellassenheit
(Serenidade), isto é, diante desse quadro não há o
que fazer; a filosofia não
pode oferecer ações (esse não seria mais um
conhecimento próprio a ela),
portanto, para Heidegger, “só um Deus é que ainda pode
nos salvar”. Independente das conclusões
feitas pelos pensadores analisados, Rubem Mendes de Oliveira
convida-nos a
pensar a questão da técnica a partir de Spengler e
Heidegger, mas também para
além deles. Essa é uma questão cada vez mais
importante em nossa sociedade. Não
podemos cogitar em não pensá-la. Com efeito, compreender
o modo como dois significativos
pensadores a elaboraram, amplia nosso prisma sobre a questão. Possa este instigante livro
trazer ao leitor não apenas o prazer da leitura de um texto bem
escrito, mas
chamar a atenção para os desafios que a questão da
técnica nos impõe. Caderno
Pensar
-
Jornal Estado de Minas, 9 de
setembro de 2006
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