A cidade e a gripe

Poucos devem se lembrar do acontecimento que, em 1918, aterrorizou a população mundial, inclusive o Brasil e a cidade de Belo Horizonte. A gripe espanhola fez suas vítimas pelo mundo afora e, como para as epidemias sempre existiu globalização, não deixou de fora a já então capital de Minas Gerais.
Anny Jackeline Torres Silveira, historiadora por formação e pesquisadora por vocação, também não conviveu com a gripe espanhola. É uma jovem pesquisadora que escolheu como tema para suas investigações a pandemia de gripe em Belo Horizonte, sem se esquecer do panorama nacional e mundial.
O material de seu doutorado foi transformado em livro, para a sorte dos leitores interessados em conhecer um pouco mais sobre as primeiras décadas do século 20 no Brasil e em Minas.
Estamos diante de um impecável trabalho de pesquisa histórica. Utilizando-se, entre muitas outras fontes históricas, de jornais da época, Anny nos apresenta as aventuras e desventuras daqueles envolvidos e atingidos pela gripe espanhola. Logo no início do texto, tratando dos primeiros dias de agosto de 1918, a autora relata um acontecimento em Belo Horizonte. Médicos mineiros, como os doutores Borges da Costa e Renato Machado, ambos professores da Faculdade de Medicina, além dos assistentes de enfermagem Tavares de Lacerda e Castro Silva e do chefe de laboratório da Santa Casa de Misericórdia, Adelmo Lóundi, compunham o grupo que formava a comissão mineira da área da saúde, por isso homenageados, que se dirigia para a França, a fim de prestar serviços nos campos de batalha durante a Primeira Guerra Mundial.
Em um curto período após o embarque de tão destemidos e dedicados profissionais da saúde, a grande aventura que se apresentava é interrompida por motivos de saúde pública. Em outubro de 1918 uma moléstia fulminante atinge a esquadra brasileira estacionada no porto africano de Dakar. Tratava-se da gripe espanhola (como ficou conhecida por acreditar-se que era originária da Espanha), que fez milhares de vítimas no Exército e na Marinha espanhola e propagou-se por regiões vizinhas.
A epidemia não demorou a chegar ao Brasil, atingindo não apenas marinheiros e soldados, mas a população de forma generalizada. De acordo com Anny Jackeline, a gripe espanhola espalhou-se como rastilho de pólvora por diversas cidades brasileiras. As dimensões da epidemia lembram a tragédia da peste negra no período medieval.
HITÓRIA SOCIAL
A pesquisa de Anny Torres da Silveira insere-se no que denominamos história social das doenças, uma ramificação da história das ciências. Neste universo, para além dos dados técnicos das doenças, o pesquisador interessa-se em perceber o impacto da epidemia na população. Em sala de aula costumo brincar com meus alunos dizendo que as estatísticas nos auxiliam a perceber determinada realidade, mas, quando alguém está infectado por uma doença, ele está 100% doente. O texto da Anny buscou investigar os 100% dos doentes em Belo Horizonte. De acordo com as pesquisas realizadas para publicação do livro, entre outubro, novembro e dezembro de 1918, foram notificados, pelos serviços de saúde pública de Belo Horizonte, 3.877 casos da doença, entre os quais estavam 306 pessoas que faleceram.
Há controvérsias com relação aos números apresentados, mas em todas as fontes confirma-se a gravidade da situação. No meio desta catástrofe pública diversos setores da população se mobilizaram: imprensa, doações de civis, trabalhadores voluntários etc. O texto em questão acompanha o avanço da epidemia nos bairros da cidade: saindo da região central do perímetro da Avenida do Contorno e atingindo os bairros Barroca, Barro Preto e Floresta.
Mas, para além dos doentes, o texto não deixa de abordar o contexto da bacteriologia à época. Apesar das conquistas da área bacteriológica, que ofertava o controle de doenças transportadas pela água, por alimentos e por insetos, a medicina e os médicos pouco podiam fazer contra as doenças transmitidas pelo ar. Neste ambiente de dúvida e incertezas, o espaço para convivência de práticas populares e crendices está aberto. Não demoraram a surgir os produtos miraculosos anunciados em jornais e vendidos em farmácias. Entre eles não podemos deixar de citar alguns, como o “precioso preparado peitoral”, especialmente criado para combater a “espanhola”, ou o produto “sanahespana”, à base de quinino. No anúncio do Sanahespana há o aviso de que em seis dias a farmácia que o comercializa vendeu 14.298 cápsulas deste “racional e verdadeiro específico contra a gripe espanhola” (anúncios de jornal citados no livro).
PLANEJAMENTO E CAOS
Há um detalhe que não deve ser menosprezado. Trata-se de estudar a epidemia em uma cidade que foi toda planejada. De acordo com Abílio Barreto, citado por Anny, adotou-se o modelo de “terra arrasada”, ou seja, destrói-se tudo, para edificar, dentro de métodos criteriosos, a nova capital. Neste sentido havia a expectativa, logo desfeita, de ter-se edificado uma cidade salubre.
Assim, o livro A influenza espanhola e a cidade planejada interessará não apenas aos leitores apaixonados pela história de Belo Horizonte, mas também aos diversos profissionais da saúde que já perceberam, parafraseando o título de um livro organizado pelo grande historiador francês Jacques Le Goff, que “as doenças têm história”. Anny nos convida a não esquecer a gripe espanhola na cidade construída nos finais do século 19. E, ao nos apresentar a cadência da epidemia acompanhada da sua tragédia, leva-nos a refletir sobre as epidemias contemporâneas.
O próximo passo das pesquisas de Anny Silveira Torres já é aguardado. Ela é a responsável pela organização em andamento de um número especial da revista Varia Historia, do programa de pós-graduação em história da UFMG, com artigos de diversos pesquisadores do mundo que tratarão da epidemia da gripe espanhola em seus respectivos países. Vamos aguardar.
A INFLUENZA ESPANHOLA E A CIDADE PLANEJADA: BELO HORIZONTE, 1918
De Anny Jackeline Torres da Silveira, Editora Argvmentvm, Fapemig e Capes/Prodoc
Texto: Betânia Gonçalves Figueiredo
Publicado no Caderno Pensar – Estado de Minas – Julho de 2008