|
As teias da razão. Wittgenstein e a crise
da racionalidade moderna.
De: Mauro Lúcio Leitão Condé Publicado no Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 02 de Abril de 2005. Paulo Roberto Margutti Pinto Neste livro, que surgiu a partir da tese de doutorado redigida por Condé sob minha orientação, o autor procura mostrar que a pós-modernidade coloca sob suspeita a própria idéia de razão. Isto faz com que nossa principal questão filosófica talvez seja aquela relativa ao estabelecimento dos novos critérios de constituição da razão, sem apelar para algum tipo de fundamentação última e sem cair no relativismo extremo. O objetivo de Condé consiste na tentativa de estabelecer, a partir do estudo do pensamento de maturidade do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), uma proposta que auxilie a equacionar alguns aspectos importantes da crise da razão. Isto se justifica não só pela importância do pensamento de Wittgenstein, mas também porque as propostas alternativas para lidar com a crise da razão, como a de Apel, de Habermas ou de Rorty, que se inspiram de algum modo no pensador austríaco, revelam-se insatisfatórias. Em sua interpretação de Wittgenstein, Condé argumenta que o conceito de análise nas Investigações Filosóficas não envolve apenas a dimensão da terapêutica da linguagem, mas inclui também os parâmetros do racionalmente correto. Desse modo, Condé se propõe a compreender a análise wittgensteiniana como algo que permite compreender o funcionamento da linguagem e, portanto, da racionalidade. Esta última se estabelece em Wittgenstein a partir da constatação de que a linguagem se configura como uma rede multidirecional flexível que se estende através de semelhanças de família. Nesta perspectiva, a gramática e as interações dos jogos de linguagem constituem as teias da razão, ou seja, uma racionalidade que se forja a partir das práticas sociais numa dada comunidade e que não mais se assenta em fundamentos últimos. Se isto está correto, então Condé pode afirmar que, apesar da conhecida proibição wittgensteiniana de elaborar teses filosóficas, é possível elaborar tais teses, desde que não sejam metafísicas e obtenham legitimação na gramática. A filosofia das Investigações permite a elaboração de uma “teoria”, embora esta última não seja de caráter transcendental. Para estabelecer sua proposta, Condé distribui o assunto de sua pesquisa em cinco capítulos. No primeiro, intitulado A Pragmática da Linguagem, Condé mostra que Wittgenstein abandona, nas Investigações, não apenas sua filosofia de juventude presente no Tractatus, mas também o modelo de racionalidade que a fundamentava. Assim, ele abandona a concepção semântica do Tractatus para abraçar a concepção pragmática das Investigações. No segundo capítulo, intitulado A Gramática, Condé mostra que as diferenças entre as concepções de gramática no Tractatus e nas Investigações repousam na rejeição de uma visão essencialista da lógica. Uma importante característica aqui discutida é a da autonomia da gramática. É ela que nos mostra que a gramática, embora nos permita interagir com o mundo, não se fundamenta nele metafisicamente. Com isso, Wittgenstein consegue desalojar a ontologia tradicional, enquanto fundamento da racionalidade. Se há essência, ela está na gramática. No terceiro capítulo, intitulado Gramática versus Ontologia, Condé procura mostrar como muitos dos intérpretes da segunda filosofia de Wittgenstein ainda a vêem a partir das concepções tradicionais, por ele superadas. Isto possibilita aquilo que Condé denomina equívoco das interpretações conflitantes, que consiste na tendência de muitos autores em ler Wittgenstein sem levar em conta a perspectiva pragmática que supera os dualismos tradicionais, enquadrando-o assim equivocadamente em um dos pólos destes dualismos, como, por exemplo, idealismo ou realismo. No quarto capítulo, intitulado Gramática e Racionalidade, Condé desenvolve sua tese segundo a qual a racionalidade, nas Investigações, se constitui através da gramática e dos jogos de linguagem. Aqui, nossos critérios de julgamento são gramaticais, mas podem ser corrigidos e aprimorados a partir das interações nos jogos de linguagem. Este modelo de racionalidade permite concluir que Wittgenstein não aponta necessariamente em direção ao relativismo absoluto. Temos, na verdade, um relativismo mitigado, ligado a uma racionalidade contingente, em que a gramática se apresenta como uma teia multifacetada entre outras teias. No quinto capítulo, intitulado Gramática, Filosofia Edificante e Pragmática Transcendental, Condé procura analisar duas perspectivas importantes que resultam da crise da razão moderna: o relativismo de Rorty e o universalismo de Apel. Os dois autores convergem numa interpretação de Wittgenstein segundo a qual a consideração dos jogos de linguagem e das formas de vida implica em relativismo. Contra ambos, Condé argumenta que, apesar de formas de vida diferentes sustentarem modelos diferentes de racionalidade, elas podem compartilhar semelhanças que permitiriam comparar os critérios de racionalidade entre elas. O relativismo pode ser mitigado através do equilíbrio entre gramática e jogos de linguagem. Apel e Rorty estão equivocados. Em síntese, Condé pensa que o segundo Wittgenstein oferece, como alternativa ao fundacionismo e essencialismo que viciam a razão moderna, uma concepção de racionalidade sem fundamento último e baseada em critérios pragmáticos para lidar com o mundo, ao invés de representá-lo. Essa concepção mais modesta parece mais adequada para o tratamento de nossos problemas filosóficos atuais. Nessa perspectiva, embora Wittgenstein tenha falecido já há cinqüenta anos, ainda temos muito a aprender com ele. Conheço Mauro Condé há muitos anos. Orientei sua dissertação de mestrado, intitulada Wittgenstein. Linguagem e Mundo. Este texto também foi publicado, contando com uma apresentação de minha autoria, e já se encontra na segunda edição. Ao escrever esta resenha, voltam à minha lembrança as inumeráveis e frutíferas conversas que tivemos em torno das duas pesquisas. Penso que Condé evoluiu muito durante esse tempo todo e que o resultado disso está aí, em seu novo livro. Como se pode ver pela exposição acima, ele não se limita meramente a fazer a exegese de Wittgenstein, como geralmente acontece entre nós, mas procura apropriar-se de suas idéias com o objetivo de oferecer uma alternativa à crise da racionalidade moderna. Nesta apropriação, os aspectos mais significativos estão na tese de que o conceito de análise em Wittgenstein possui uma dimensão sistemática ao lado da dimensão terapêutica, no destaque dado à autonomia da gramática, no levantamento da questão da racionalidade envolvida pelas interações entre formas de vida diferentes, na defesa enérgica de que nem os aspectos biológicos nem os aspectos puramente gramaticais devem ser enfatizados na explicação da racionalidade e na adoção de um relativismo mitigado em contraposição às interpretações de Rorty e a Apel. Tudo isso leva Condé a defender corajosamente a possibilidade de se construir um “sistema” ou uma “teoria” a partir das idéias do segundo Wittgenstein, em que a linguagem e os fatos se equilibram para constituir uma racionalidade contingente, em forma de “teia”, mas dotada de suficiente objetividade para permitir que avancemos em nossa lida com o mundo. Penso que essas idéias convergem com as de outros autores importantes do pensamento filosófico contemporâneo, como, por exemplo, Sellars, Quine, Davidson e Habermas. O próprio Rorty, em que pesem os argumentos de Condé contra sua interpretação de Wittgenstein, também tem alguma coisa a ver com essas idéias, que envolvem a substituição da noção de que conhecemos as coisas do mundo através das representações que delas fazemos pela noção de que nós as conhecemos através das interações causais que temos com elas. Como compartilho a linha geral de raciocínio destes pensadores, concordo com a perspectiva de Condé, embora, como não poderia deixar de ser, discorde dela em questões de detalhe. Mas não há muito espaço para discutir isso aqui. De qualquer modo, penso que o livro de Condé merece uma leitura atenta por parte daqueles que se interessam por esse tipo de problema. Paulo
Roberto Margutti Pinto
Professor Titular do Departamento de Filosofia da UFMG
|