A Ciência vai ao cinema

Nada melhor que uma boa conversa sobre filmes. Ela nos faz pensar melhor sobre o que sentimos e imaginamos quando estávamos entretidos assistindo alguma cena. Nessas conversas ficamos conhecendo outras interpretações, nos damos conta de aspectos que nos passaram despercebidos e refletimos sobre nossas impressões. Não raro, queremos rever passagens do filme em discussão.

Esse processo tem um grande potencial cognitivo que ainda é apenas timidamente reconhecido. Embora o uso pedagógico de filmes e dos debates que eles propiciam seja bastante disseminado, ainda há poucos estudos sobre esse recurso ou livros que ajudem a incrementá-lo. Vários publicados recentemente têm contribuído para suprir essa lacuna. A História vai ao cinema (Ed. Record), Cinema e educação, a escola vai ao cinema (Autêntica) sao alguns bons exemplos. Também periódicos científicos têm trazidos artigos e estudos sobre análises de filmes e de suas relações com a educação. O próximo número de Educação em Revista será dedicado a esse tema.

Uma outra perspectiva que começa a ser explorada é a de filmes que tratam da história da ciência, envolvendo não apenas reconstruções de descobertas, experimentos, teorias e biografias de cientistas, mas reações da sociedade frente ao desenvolvimento da ciência e projeções do imaginário social.


A vinculação entre cinema e ciência é antiga. Antes mesmo de Lumiére encantar o público parisiense, em 1895, com a projeção de cenas impressionantes que inauguraram o cinema como uma fabulosa forma de entretenimento, as técnicas de criar imagens em movimento com seqüência de fotografias serviram a propósitos científicos. Duas décadas antes, o astrônomo francês Jules Janssen já usava um “revólver fotográfico” para reproduzir o registro da trajetória do planeta Vênus. E fazia isso inspirado pela experiência do fotógrafo inglês, Eadweard Muybridge, que montara uma incrível seqüência de fotografias da corrida de um cavalo, reproduzindo seu movimento em detalhes. Isso foi logo percebido como um grande recurso para estudo de fisiologia do movimento. O vôo dos pássaros de Etienne Marey foi publicado em 1890, a partir das análises propiciadas por esse novo instrumento de pesquisa. Cientistas de outras áreas não tardaram a perceber as vantagens desse recurso e utilizá-lo. Algumas dessas experiências com “rolos de cronofotografias” foram mostradas na Academie de Sciences da França, no início da década de 90 do século XIX.

Muito além de instrumento científico, o cinema foi um grande veículo de divulgação dos avanços da ciência e formação de uma audiência que entrevia nas telas o uso ilimitado de suas possibilidades. Enquanto aparato tecnológico, o cinema encarnou a modernidade através da velocidade, dos efeitos especiais, da urbanidade e multidão de consumidores. Mas ele significou também um meio extraordinário de circulação do conhecimento, de experiências e valores culturais. Numa cultura inteiramente permeada pela expectativa de progresso científico e produtos tecnológicos é natural que os meios de comunicação projetem perspectivas semelhantes. Não apenas documentários e ficções científicas exprimem os conhecimentos desejados e os alcançados, mas até mesmo os dramas (profundos ou tolos) e as comédias revelam a penetração da ciência em nossa cultura. Isso faz dos filmes um ótimo material para análise da cultura e também para compreensão da história da ciência. Seja através da reconstrução do passado ou do futuro do pretérito, os filmes nos possibilitam re-visitar os eventos ocorridos ou imaginados.

As transposições e as vivências que a linguagem cinematográfica possibilitam são tão marcantes, que muitas vezes elas se tornam as referências profundas e comuns pelas quais a ciência e a tecnologia são percebidas por grande parte da sociedade. Mais do que aprendizagens derivadas das práticas educativas formais, as experiências vivenciadas nos filmes acabam compondo boa parte do arsenal simbólico no qual a opinião pública vislumbra o alcance dos empreendimentos científicos e tecnológicos. Um exemplo caricato é o título da mostra de cinema que o Centro de Astrofísica da Harvard University, ninho de vários cientistas laureados, mantém há algum tempo: “Tudo que aprendi sobre ciência foi pelos filmes”.


Embora menos evidente, os filmes nos possibilitam também entender a época e as perspectivas daqueles que reconstruíram em imagens cinematográficas as histórias ocorridas ou imaginadas. Antes de vir a contribuir na formação e reforço de hábitos culturais, a produção de um determinado filme leva em conta a visão de seu público alvo, seu universo de referências, conhecimentos e expectativas. Assim, um filme expressa o olhar não só das pessoas envolvidas em sua montagem, mas, indiretamente, revela o imaginário de seus expectadores. É interessante comparar como os mesmos enredos ganham outros contornos nas refilmagens. Por isso, os filmes a respeito da ciência podem ser instrutivos não apenas para estudantes ou curiosos em ciências, mas também para todos aqueles interessados em História.

Bernardo Jefferson de Oliveira - UFMG

Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar 8/10/2005