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Trópico
Nem moderno nem pós-moderno
Por Humberto Pereira da Silva
“As Teias da Razão” analisa a relação do pensamento de Wittgenstein com a crise da racionalidade moderna
A oposição moderno e pós-moderno que se estabelece
no debate filosófico desde pelo menos o final da década de
70, quando Jean-François Lyotard pôs em xeque as balizas do
projeto moderno em “Condição Pós-Moderna”, mobiliza
nomes como o do próprio Lyotard, Foucault, Rorty, Apel, Habermas,
entre outros. Tal oposição envolve o problema da permanência
do projeto moderno, que se sustenta em pressupostos universais das narrativas
de emancipação do gênero humano pelo uso da razão.
Para pensadores que se identificam com as críticas no âmbito
da pós-modernidade, em contraste, as narrativas de emancipação
pelo uso da razão malograram: não mais é possível
pensarmos nos termos de princípios racionais válidos para todos:
terreno fértil, pois, para ceticismos, relativismos, niilismos...
Possivelmente, com exceção de Foucault (mais próximo
de Heidegger e Nietzsche), os outros pensadores acima têm de algum
modo suas idéias marcadas pela influência do filósofo
austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), reconhecidamente um dos
mais influentes do século passado.
Tendo por referências a oposição moderno e pós-moderno
(a crise da racionalidade moderna, portanto) e o peso da influência
do pensamento wittgensteiniano (mais precisamente o pensamento tardio de
Wittgenstein), Mauro Lucio Leitão Condé, professor da Universidade
Federal de Minas Gerais, dá a lume sua tese de doutorado sob o título
“As Teias da Razão: Wittgenstein e a Crise da Racionalidade Moderna”
(Argvmentvm Editora, 240 págs., R$ 35). Ressalto que esse é
o segundo livro de Conde que tem em mira o pensamento de Wittgenstein: em
1998, pela editora Annablume, ele lançou “Wittgenstein: Linguagem
e Mundo”. Trata-se, portanto, de destacado estudioso da obra do filósofo
austríaco.
Para situar Wittgenstein e os usos (leituras) de seu pensamento feitos
do rescaldo de sua obra, Condé procura não só caracterizar
a crise da modernidade como, igualmente, destacar que o pensamento de Wittgenstein,
longe de se afinar com o projeto moderno, lança luzes sobre o campo,
aparentemente estéril, das investigações filosóficas
nos tempos da pós-modernidade. Com isso, vale frisar, Condé
chama a atenção para aspectos da filosofia de Wittgenstein
-mais fortemente identificada aos campos da lógica, da filosofia da
matemática e da psicologia- que estão na esteira da crítica
da cultura e das práticas sociais.
A questão inicial, então, com que Condé se depara
é: sem apelar para algum tipo de fundamentação última,
conforme a racionalidade moderna, que tem como ponto de partida a universalidade
de princípios racionais, como não situar Wittgenstein entre
céticos ou relativistas, o que foi feito por pensadores como Kripke,
Rorty e Apel? Ou seja, como ler a obra madura de Wittgenstein e equacioná-la
fora dos cânones que opõem modernos e pós-modernos? Ou,
ainda, equacioná-la fora dos cânones que opõem idealistas,
realistas, céticos e relativistas?
Tendo em vista essas questões, Condé pondera que Wittgenstein
parte das noções de “gramática” e de “jogos de linguagem”,
com as quais situa a possibilidade do estabelecimento de critérios
de racionalidade que possam ser compreendidos e aceitos por diferentes “formas
de vida”. De sorte que, do modo como o pensamento tardio de Wittgenstein
se afasta de pressupostos últimos para a fundamentação
da razão -com as noções de “gramática”, de “jogos
de linguagem” e de “formas de vida”-, para dar conta das questões
que propõe, Condé estrutura seu livro em cinco capítulos:
a pragmática da linguagem; a gramática; gramática vesus
ontologia; gramática e racionalidade; gramática, filosofia
edificante e pragmática transcendental.
O acento na filosofia tardia de Wittgenstein é dado pela pragmática
da linguagem, entendida como uma nova forma de compreender a filosofia: a
racionalidade baseada na pragmática permite compreender que a questão
do fundamento último do conhecimento é uma ilusão gramatical.
Presas às noções de pragmática estão as
noções de “jogos de linguagem” e de “semelhança de família”.
A linguagem não está assentada na perspectiva referencial
das palavras e sim no seu uso em diferentes jogos. Não há um
significado essencial para as palavras, pois este se revela pelo seu uso
em diferentes contextos, conforme as regras de cada jogo: a significação
de uma palavra não traz uma essência invariável, visto
resultar do uso. Assim, em diferentes jogos, o que uma palavra guarda é
uma semelhança de família.
Porque não há significação última
de uma palavra, porque para Wittgenstein é o mal-entendimento do uso
da linguagem que nos leva a buscar uma essência invariável nas
palavras, Condé procura mostrar que é um equivoco ler Wittgenstein
pela distinção entre “proposições gramaticais”
e “proposições empíricas”. Tanto as proposições
empíricas quanto as gramaticais fazem parte da gramática. E
uma das mais importantes características da gramática é
a sua autonomia; por conseguinte, proposições gramaticais e
empíricas são caracterizadas a partir da função
que desempenham no jogo de linguagem.
A partir da pragmática e da gramática, Condé mostra
que o tratamento de problemas filosóficos tradicionais de filosofia
para Wittgenstein é destituído de sentido. A compreensão
de que existem categorias do entendimento constitui um mito contra o qual
ele se coloca em sua filosofia tardia. De modo que ele substitui a perspectiva
de compreensão da racionalidade como categorias pelos jogos de linguagem
em uma forma de vida, e isso, como procura mostrar Condé, sem cair
numa postura relativista ou cética.
Depois de tratar da pragmática da linguagem, da gramática
e do modo como Wittgenstein opõe gramática e ontologia, Condé
ataca o problema da relatividade entre as formas de vida. Pois o que ele
tem em vista é tentar mostrar como, ao se afastar da racionalidade
moderna, Wittgenstein não fica preso a uma postura relativista. Postura
essa que é defendida por muitos comentadores de sua obra.
Nesse ponto, Condé sustenta que, mesmo se considerarmos que uma
forma de vida estabelece seus critérios de racionalidade, ela pode
interagir racionalmente com outras. Elas podem compartilhar semelhanças
entre seus jogos de linguagem, hábitos e instituições.
Essas semelhanças sugerem que diferentes formas de vida interagem
em pontos significativos. Com isso, Condé se opõe aos comentadores
que creditam a Wittgenstein uma postura relativista. A gramática,
eis a tese fundamental de Condé, constitui um tipo particular de “sistema”
que se distribui como uma “teia” multifacetada entre outras “teias” possíveis.
Por fim, para dar força à sua tese, Condé estabelece
uma contraposição entre o modelo de racionalidade que apresenta
e as interpretações da obra tardia de Wittgenstein que são
feitas por Rorty a Apel: ambos situam-na no escopo do relativismo. Condé
entende que Rorty e Apel, apesar de terem sido influenciados por Wittgenstein,
o situam na perspectiva relativista porque não incorporam efetivamente
o que a pragmática oferece.
Com isso, atribuem a Wittgenstein o que parece ser os limites de suas
próprias filosofias. Condé sustenta que uma leitura atenta
do Wittgenstein tardio não deve colocá-lo como moderno, tributário,
portanto, de uma filosofia que parte de princípios universalizantes,
tampouco como pós-moderno, a se levar em conta que sua rejeição
à alternativa essencialista não o coloca como um relativista.
Wittgenstein, como é sobejamente conhecido, é um pensador
que desperta curiosidade na mesma medida em que oferece dificuldades de interpretação.
Trata-se de filósofo com pensamento sinuoso, frequentemente expresso
em proposições enigmáticas e sibilinas. “As Teias da
Razão” segue um percurso árduo na tentativa de destrinchar
pontos ambivalentes e obscuros de seu pensamento e, com a reposta dada às
questões que propõe, Condé acredita ajustar o pensamento
de Wittgenstein ao tratamento de problemas como o da crise da modernidade.
Entendo que “As Teias da Razão” traz contribuições
importantes não só para a atenção que se deve
ter para os debates em torno da crise da modernidade como para a elucidação
de pontos polêmicos do pensamento de Wittgenstein, em contraste com
pensadores como Kripke, Rorty e Apel, entre outros, que se deixaram influenciar
por suas idéias. Há, no entanto, dois pontos embaraçosos
nesse livro de Condé.
Não acredito que o Wittgenstein tardio, como Condé defende,
reconheceria que sua filosofia inspira de alguma forma a elaboração
de certo tipo de “teoria”. Parece-me que ao admitir isso Condé corre
o risco de ficar exposto às mesmas objeções que faz
a Rorty e Apel: a de não incorporar efetivamente o que a pragmática
oferece.
Igualmente embaraçoso, assim me parece, é o modo “essencialista”
com que Condé traduz algumas palavras do vocabulário wittgensteiniano.
“Bedeutung” (significação), por exemplo, no jovem Wittgenstein
é a designação de um objeto; já no tardio, é
dada pelo uso. Mas, por que Condé lança mão de uma nota
de rodapé para enfatizar que “Bedeutung” oferece dificuldades de tradução?
A dificuldade de tradução resume-se na dificuldade de encontrar
em português “uma” palavra que “corresponda” a “Bedeutung”? Novamente,
caso fosse versado em português, não acredito que Wittgenstein
não faria objeção a tentativas de encontrar a “forma
correta” de traduzi-lo. Bastaria, no caso, lembrar das dificuldades de tradução
e não da procura de uma “forma mais pura”.
(Publicado em 7/4/2007)
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Humberto Pereira da Silva
| É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora). |
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